sábado, 16 de fevereiro de 2013
a teia de aranha
Levantava - se todos os dias crendo nos dias da mesma forma, como se o tempo tivesse parado. Ainda por cima, cedo, sempre. Ía à casa de banho, pequena onde só cabia um corpo, libertava a bexiga e olhava -se no espelho. Nada tinha mudado, nem ela, nem o mundo. Apesar de ter quase oitenta anos, ainda conservava o cabelo preto e comprido, graças ao olex que tresandava a petróleo, comprado numa farmácia onde a sua irmã, também entrandota na idade, trabalhava há muitíssimos anos.Depois de dois dedos de conversa com o patrão, a sua irmã aparecia por trás do balcão e após uma troca de olhares já sabiam o que uma ia vender e a outra comprar. Sentava -se depois na cama, a fazer a trança, punha o cabelo de lado e com a cabeça inclinada, dançava com os dedos de lá para cá até a mecha de cabelo terminar num fiozinho fininho de cabelo. Na cama onde tinha dormido com o seu homem, onde tinha adormecido os netos com festinhas na cabeça, onde tinha morrido o seu homem com cancro de pulmão, ela fazia a trança com o movimento de sempre e a trança ficava sempre igual. Tomava o seu pequeno almoço na cozinha, como se estivesse acompanhada. Nada de pressas a que a solidão às vezes se habitua. Punha sempre a toalha lavadinha, fazia uma jarra com flores apanhadas no quintal, refeição completa com a melhor alimentação, de qualidade. Tal e qual como se estivessem "todos" em casa ou esperando a qualquer hora uma visita que não chegava. Antes vinha a filha às sextas com os netos na carreira das 9: 30. Era sempre cevada com leite e um pão que comia e depois ía para o estabelecimento, como fizera quando o seu homem que era latoeiro, estava vivo. Abria as portas pendurava nas portas as cestas em palha e ía colocar -se atrás de uma mesa velha, pesada, enorme com umas patas largas e uma gaveta, a do dinheiro, das faturas, do caderno dos "cães" - os caloteiros da loja. A loja não tinha um chão feito; era irregular e cinzento o que se pisava. difícil era varrê - lo porque o lixo acumulava - se nas protuberâncias e porosidades. A loja tinha caixinhas amontoadas de pregos, parafusoso, porcas, camarões, alguns já enferrujados. A montra era uma tábua alcatifada de vermelho atrás de uma janela amarelada do tempo. Vendia louça, brinquedos, panelas e tachos, brincos de plástico, detergentes tudo fora de prazo, ninguém os comprava, estavam fora de tempo. O que ainda se vendia era o gás, as pessoas continuavam a comprar gás. Quando aparecia algum cliente, perguntava quase sempre algo que não havia na loja. Alguns entravam e saíam pouco tempo depois. Mas a velhinha em memória do tempo que não queria que tivesse passado, mantinha a mesma rotina todos os dias e de trança negra abria a porta aos clientes, mas não a um tempo diferente. Os filhos ainda lhe deram a ideia de vender a loja ou criar uma loja dos "trezentos" que dava mais dinheiro. Ela só respondia:
- Quando eu morrer, podeis fazer tudo o que quiserdes.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
A cidade hoje
Gosto de andar pela cidade a caminhar, atenta ao que me rodeia. Gosto particularmente quando esvazio a cabeça de mim própria para receber a mensagem que os outros me passam.Hoje foi um desses dias.
Tento disfarçar quando quero descobrir o que está a acontecer num apartamento ou casa onde alguem deixou a cortina arredada. Depois, já sentada numa pastelaria, das poucas hoje abertas pois é dia de Carnaval, enquanto ía derretendo o almendrado castanhinho e fofo no café que aguardava na boca, entra uma mulher com um lenço às flores, que lhe cobria os cabelos brancos. Tinha umas calças de fato de treino azuis borbotadas e gastas nos joelhos e umas meias grossas que saíam fora dos chinelos de borracha. Entra na pastelaria e diz muito sorridente: - Bom Natal a todos! Em troca, recebe das mãos da empregada de mesa um saco de pão e um riso. Saio dessa pastelaria, em frente à Segurança Social, e dirijo me para o mar. Como estará ele com este mau tempo? Deixa - me ir ver as ondas. De caminho, uma mulher com uma mala rosa sentada à entrada de um prédio que fica ao lado de uma loja de materiais de construção, deita as mãos à cabeça e abana -a desolada. Fui ver o mar e estava como eu imaginava - mau que se fartava, desafiante para o surf. Lá estavam eles com a sua prancha prontos a entrar na água. Até que gosto deste desporto, mas só de o ver. Bem, agora vou à igreja da Nossa Senhora da Ajuda. Preciso de conversar com quem eu sei que me ouve. Santa Teresinha de um lado, Nossa Senhora de Fátima do outro , lá ao fundo Santo António, música de fundo, combinação perfeita para eu "falar". Havia tanto que. Bom, saí e agora vou aonde? Vou à Biblioteca ler qualquer coisa. Afinal estava fechada. Vou buscar as chaves de casa e vou para casa. - Hey, pois é faltam as chaves. Dá - me as chaves. É da minha imaginação ou ouço alguém a falar de chaves? Era um homem no meio da rua com uma perna de pau a pedir dinheiro aos carros que paravam nos semáforos. Agradecia, quer dessem ou não, com um aceno de mão. Esta foi ou é a cidade hoje. Não tem o chilrear dos passarinhos, a calma das horas, nem os aromas vivos e agradáveis da aldeia, ou instantes belos que deverão ser guardados para mais tarde serem recordados. Mas é genuina, reveladora e asfixiante; a pedir socorro porque as horas passam rápido de mais e nem sempre se acompanham. Depois, só se pode parar à espera de outra melhor hora para avançar. Eu preciso de vez em quando de estar na cidade para avançar de mim.
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