quinta-feira, 19 de março de 2026

Sem crédito

Ninguém me vai pagar as tardes de domingo incompletas; aquelas de coração como um slime a desagarrar lentamente do fim de semana que se passou a correr e a meter numa mala roupa, comida e trabalho que ainda houve para fazer enquanto se ouvia a voz da mãe e se dava colo à filha que pedia para brincar. Ninguém me vai pagar as noites que dormi em casebres, em pensões, o vaguear pelas ruas a perguntar a desconhecidos se tinha ou conhecia alguém que alugasse casa, e a noite a aproximar-se e eu sem casa. O confiar em desconhecidos e dormir na casa deles pois só tinha a rua para dormir. E a chuva a cair no quarto, e os passos do homem que trabalha por turnos a despertar-me às 2.00. Ninguém me vai pagar a casa na zona industrial, junto à serralharia, enorme, com um salão que dava para albergar um casamento. Ninguém me paga os ruídos noturnos, as máquinas de sons e ventoinhas para os camuflar e o velar do sono da minha filha. E as paredes a escorrer água a ficarem lentamente sem tinta. Os recibos de renda que ficaram por passar e as quantias elevadíssimas a pagar. Ninguém me vai pagar não ver a família a envelhecer e surpreender-me quando vejo a minha mãe, como se fosse uma estranha ou uma traidora que viveu dias sem mim e deixou crescer o cabelo branco e as dores de ossos na minha ausência, dias e dias da sua vida sem estar junto a ela, quem mos vai retribuir? E passo nas ruas por onde ando, sempre longe, à procura das portas abertas das casas, de ver o que se passa lá dentro, a tentar decifrar o que se cozinha, o que se fala, quem lá está. E passo nas ruas imaginando que vou a uma daquelas casas onde alguém me espera, novo,velho, homem, mulher, criança, não interessa - o que importa é que alguém esperou por mim e fica feliz por me abrir a porta e insiste para que eu fique e volte. Mesmo que eu regresse para os casebres onde tenho vivido, sei que há naquela cidade uma casa, com cheiros de espera, onde alguém sabe que eu existo e conta comigo na sua vida. Uma casa, de entre tantas ali, aonde eu posso ir que encontro a porta aberta, enquanto a da minha família está longe e não faço ideia se está berta ou fechada.

terça-feira, 10 de março de 2026

A solidão

Estar comigo própria já foi tão bom. Desde os meus quinze anos, quando mudei de escola e voltei pela segunda vez na minha vida a ir de uma cidade para uma aldeia, decidi que, perante o ambiente escolar de aversão ao que vem de fora, como eu vinha, a minha melhor companhia seria eu própria, a adensar esta convicção estavam as amizades falhadas com falsidades e revelacão de segredos bem como as disputas pelas melhores notas. Eu tinha à força de ser a minha melhor amiga. Consegui e a sensação de liberdade e independencia de qualquer conflito relacionado com amizades, fazia me sentir mais forte. Mesmo assim, fiz duas amizades mais próximas a troco de as deixar as copiar nos testes de Filosofia e Português. Foi há pouco tempo que me desmaravilhei com a amizade pura e constatei que muito do que chaamva amizade era a troco de algo, como se de um negócio se tratasse: um toma lá dá cá de jeitos feitos. Deixa-me sem esperança esta aprendizagem. O estar comigo sem nada em troca acontece em manifestações de vontades que não se chegam a concretizar por um motivo ou outro (a psicoterapia diz que eu oderia ir mais além, insistir mais, mas não posso, sinto que não devo). Eu tive saudades de amigas aos fins de semana, quando não havia escola. Tínhamos fotografias umas das outras só para nos vermos aos fins de semana. Mas isso, foi no segundo ciclo, quando ainda estava estável no percurso escolar. Depois de iniciar as várias transições de escola, mudei de figura e armei-me de um escudo que permitia entrar com muitas restrições, sem criar laços que me fizessem estar presa pois era como um sinal de fraqueza ou seriam de futuro, quando fosse para outra escola e ficasse sem as pessoas. Mas hoje, com 46 anos, há diferenças. Eu gosto de gente e já fiquei doente pela solidão, como agora? - tenho quase a certeza que sim. Tenho amigas que resistiram ao tempo e apetece-me muito estar com elas. Apetece-me ligar-lhes, combinar coisas para fazermos juntas, só nós a fazermos refresh na amizade. À noite, quando ouvir sons estranhos, já não me levantar para ir ver o se o cabo da vassoura está a trancar bem a janela do meu quarto e se está tudo fechado, para poder dormir tranquilamente, se o senhorio nao deixou aparelhos ligados toda a noite por baixo do quarto e se não é preciso telefonar-lhe para que os venha desligar, dia sim, dia não. Se os clientes animados do restaurante, a falar alto não perturbam o sono da minha filha e se naquela noite, a maquinaria do restaurante e a torre de telecomunicações estão em silêncio para que eu possa fechar os olhos por alguns momentos. À noite, deitar-me a adormecer e descansar a solidão e a armadura que à força tive de pôr, há muito tempo e nunca houve ninguém que a tirasse e assim há de ir comigo.