terça-feira, 10 de março de 2026
A solidão
Estar comigo própria já foi tão bom. Desde os meus quinze anos, quando mudei de escola e voltei pela segunda vez na minha vida a ir de uma cidade para uma aldeia, decidi que, perante o ambiente escolar de aversão ao que vem de fora, como eu vinha, a minha melhor companhia seria eu própria, a adensar esta convicção estavam as amizades falhadas com falsidades e revelacão de segredos bem como as disputas pelas melhores notas. Eu tinha à força de ser a minha melhor amiga. Consegui e a sensação de liberdade e independencia de qualquer conflito relacionado com amizades, fazia me sentir mais forte. Mesmo assim, fiz duas amizades mais próximas a troco de as deixar as copiar nos testes de Filosofia e Português. Foi há pouco tempo que me desmaravilhei com a amizade pura e constatei que muito do que chaamva amizade era a troco de algo, como se de um negócio se tratasse: um toma lá dá cá de jeitos feitos. Deixa-me sem esperança esta aprendizagem. O estar comigo sem nada em troca acontece em manifestações de vontades que não se chegam a concretizar por um motivo ou outro (a psicoterapia diz que eu oderia ir mais além, insistir mais, mas não posso, sinto que não devo). Eu tive saudades de amigas aos fins de semana, quando não havia escola. Tínhamos fotografias umas das outras só para nos vermos aos fins de semana. Mas isso, foi no segundo ciclo, quando ainda estava estável no percurso escolar. Depois de iniciar as várias transições de escola, mudei de figura e armei-me de um escudo que permitia entrar com muitas restrições, sem criar laços que me fizessem estar presa pois era como um sinal de fraqueza ou seriam de futuro, quando fosse para outra escola e ficasse sem as pessoas. Mas hoje, com 46 anos, há diferenças. Eu gosto de gente e já fiquei doente pela solidão, como agora? - tenho quase a certeza que sim. Tenho amigas que resistiram ao tempo e apetece-me muito estar com elas. Apetece-me ligar-lhes, combinar coisas para fazermos juntas, só nós a fazermos refresh na amizade. À noite, quando ouvir sons estranhos, já não me levantar para ir ver o se o cabo da vassoura está a trancar bem a janela do meu quarto e se está tudo fechado, para poder dormir tranquilamente, se o senhorio nao deixou aparelhos ligados toda a noite por baixo do quarto e se não é preciso telefonar-lhe para que os venha desligar, dia sim, dia não. Se os clientes animados do restaurante, a falar alto não perturbam o sono da minha filha e se naquela noite, a maquinaria do restaurante e a torre de telecomunicações estão em silêncio para que eu possa fechar os olhos por alguns momentos. À noite, deitar-me a adormecer e descansar a solidão e a armadura que à força tive de pôr, há muito tempo e nunca houve ninguém que a tirasse e assim há de ir comigo.
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