quinta-feira, 7 de maio de 2026
Contente com pouco ou muito?
Percorro sozinha as ruas. Muitas justificações dos outros que poderiam estar ao meu lado: muitas explicações que se dividem em dois: "tenho de estudar" e "não tenho dinheiro" ou "estou cansada". As expectativas de que saindo da casa da professora, indo ao encontro de uma casa emprestada, numa cidade emprestada que me deu o mar como refúgio, lembrete de sonhos por cumprir, ouvinte das minhas confissões e testemunho das minhas partidas forçadas para lugares onde eu não quero estar, saem frustradas pela ilusão de que estou acompanhada. E até acho que estou: se corresponder à expectativa que têm para mim. Até que chega um "Já consegui!". E eu questiono será que se chegou à meta? E incho-me, juro que me incho e digo para mim própria que consegui resistir às noites mal dormidas a pensar se o dinheiro era suficiente para um bebé, um homem e uma mulher; que afinal tinha valido a pena; que já não mais ouviria "às 15.00, encontro online". Que os órgãos e sistemas do corpo humano não me tinham levado ainda aquilo em que acreditava. Queria abrir a janela e arrancar de dentro daquele quarto, que foi meu (só tive o meu quarto com 10 anos e tinha duas camas, disponível para quem de uma precisasse; era no meu quarto que a minha mãe me juntava a mim e ao meu irmão quando estávamos doentes, para ser mais fácil cuidar de nós) e agora era de corações doentes, rins doentes, pulmões doentes, cabeças doentes, refúgio de um eremita que me atribuía a mim a função de pai, mãe e mulher sem homem. E continuo inchada de orgulho, mas não segura e com medo de perguntar: acabou? de tantas vezes perguntar o mesmo e me respoderem "falta um documento" ou "ainda me tenho de preparar para a próxima fase". Por isso, num contínuo, percorro as ruas sozinha, quando posso. A mão da minha filha entrelaçada na minha já me começa a faltar que a saltarica gosta de ir à minha frente a menear-se, a equilibrar-se nas bordas dos passeios, a correr atrás das pombas. Para minha proteção, deixei de ansiar por aquilo que eu julgava e julgo ser uma família. Fico contente quando vejo o mar, faço pilates, quando alguma amiga me liga, quando a minha filha me abraça e me diz que gosta de mim, quando caminho com ela, quando a minha mãe está calma e não entra em competição comigo (não sei porquê). É este pouco que para mim é muito que me faz contente.
Assinar:
Postagens (Atom)