Ser professora foi sempre a hipótese escolhida. Entre o ser enfermeira e o ser actriz, a arte de ensinar e de aprender foi desde a infância representada em pequenos teatrinhos que magicava com os amigos. Engraçado que nessas estórias os meus alunos eram alunos – amigos: respeitavam o professor e os colegas, eram interessados, faziam sempre os trabalhos de casa e estavam motivados para aprender… salvo quando se adivinhava uma outra brincadeira ou éramos chamados pelas mães. Aí a motivação de não ser repreendida pelo não cumprimento de horários era superior à da brincadeira!
Depois de ter saído das “salas de aula de aprendizagem de como ser uma professora”tive a minha oportunidade de ser actriz de representar o meu papel. As salas de aula, os alunos, os colegas, o trabalho eram reais. Ensinar não era só transmitir conhecimentos, mostrar como o mundo funciona a alunos pré – formatados. As dúvidas começaram a surgir: será que não faria melhor se fosse enfermeira ou actriz? Até que, num dia atribulado do meu ano de estágio, o Bruno, um aluno de 15 anos, “carimbado “ como hiperactivo, com participações disciplinares até à ponta do fio de cabelo mais comprido, me fez perceber que ensinar era muito mais do que aquilo que eu julgava. Tinha um desafio pela frente. (Não vou dizer que o meu desafio era tentar que o aluno mudasse o seu comportamento, que fizesse menos barulho na sala de aula, que estivesse atento. Não. O meu objectivo era conseguir numa só palavra: o Bruno.
Tornando o comportamento do Bruno observável e mensurável poderei dizer que ele sai do lugar no mínimo 5 vezes por aula, não levanta o braço para falar, insulta os colegas e é violento tanto com os colegas como com o mobiliário da sala de aula.
Depois de várias repreensões sem surtir algum efeito, aconselhei – me com os colegas da escola. Era novata, precisava de orientações; hoje percebo que precisar de trabalhar em equipa não é sinónimo de falta de experiência. Fazendo jus ao provérbio etíope - “Quando se unem, as teias de aranha podem prender um leão”- teria de me envolver mais na comunidade escolar, de questionar, de ouvir, de errar para ter necessidade de aprender com os outros. O pior era lidar com a falta de tempo: tantos planos de aula a passar no computador, tantas actas de reuniões para escrever a limpo…
Depois de ter recorrido à figura mais fácil, à da Directora de Turma, fiquei a conhecer a pessoa que estava à minha frente na sala de aula e que tanto incomodava e perturbava o bem – estar das minhas aulas – dos seus dados biográficos, muito; da sua história como aluno, pouco. O Bruno era um aluno com uma deficiência numa mão; oriundo de uma família pobre, hiperactivo. Este seria um ponto de partida para o desafio que se adivinhava.
Comecei a dar mais atenção ao Bruno. (- No final da aula quero falar contigo!). E ele gostava. Aproveitei esse facto. Conversava com ele e perguntava – lhe: Porquê? A máscara autoritária que todos temiam na sala de aula, caía por terra e envergonhado, ruborizado, ficava com três palavras: Sei lá porquê! Iria ser uma descoberta a dois…
Imaginando uma resposta deste género, dada a dificuldade de justificar os seus actos, avancei com o ruído que ele fazia perturbava não só os colegas, mas (e sobretudo) a si próprio, uma vez que não conseguiria obter bons resultados na escola e a longo prazo: não saber interpretar as regras de um jogo, não poder escrever uma carta à namorada sem erros, não poder tirar a carta, não saber comunicar nem por escrito, nem oralmente, não ser capaz de participar naquilo que o rodeia. O Bruno dizia que sim com a cabeça, que sim, ia portar – se melhor.
Cheia de esperanças, sabia que na aula seguinte iria ser diferente… ele tinha dito que se portaria melhor. Engano meu e o Bruno continuou com o mesmo comportamento. Uma conversa particular teria de acontecer e no final da aula novamente conversei com o aluno e conversei muitas mais vezes na esperança de ele mudar o seu comportamento na sala de aula.
Depois de algumas participações disciplinares, acompanhadas de muitos exercícios de aplicação de conhecimentos na Biblioteca atribuídos em momentos de nervos , em cima do joelho, de uma forma muito impensada, próprios de uma saída por mau comportamento, o Bruno modificou um bocadinho o seu comportamento. Mas o que aprendeu com isso? A punição por algo a que nem ele próprio dava justificação? As falhas do diálogo e da falta de negociação? Espero muito sonhadora que não.
Entre o tempo de estágio na Escola EB 2, 3 / S de Murça e o tempo actual, medeiam três anos lectivos na Guiné - Bissau e oito meses em Timor – Leste. Não foram palco de grandes problemas a nível de comportamento, e se os houve com diálogo e gestão de contingências foram resolvidos, o que levou à criação de laços de afecto entre mim e os alunos que se enquadravam neste tipo de problemas.
De regresso ao meu país, deparo - me com um cenário comportamental na sala de aula muito diferente àquele a que estava habituada nestes países, mas nada que eu não estivesse à espera, de bem que informada que eu estava pelas amigas: - Deixa – te estar mas é aí! Os alunos dão cabo de nós! Mas dada a minha natureza, de exploradora - teimosa, quando me dizem um não, eu vejo um sim e vice – versa. Se era assim, eu queria experimentar.
E vim. Fiquei surpreendida porque o Bruno está cá à minha espera, personalizado noutros alunos. Ainda bem! Afinal ainda tenho uma oportunidade de rever a minha actuação como professora, de experimentar outras estratégias.
Retomo então o ponto onde deixei o Bruno. Tomarei em atenção outros aspectos como sendo a organização do espaço e a realização de pausas entre os momentos de aprendizagem. Se a estratégia da conversa no final da aula, não funciona, vou aplicar a estratégia da gestão de contingências, não sem antes conhecer o máximo que puder o aluno em termos de gostos e aptidões. Teria de ter alguma precaução e de tratar um problema de comportamento de cada vez, apesar da vontade de resolver tudo logo! Agarrei no comportamento perturbador do barulho. Proponho – lhe, uma vez que ele gosta de se evidenciar (apesar de com isso aterrorizar a turma) que se ele não fizer barulho durante a aula durante uma semana, fica encarregue de registar a realização dos trabalhos de casa nessa mesma semana. Depois dessa semana, chamarei o Bruno e faremos o ponto da situação. Falaremos sobre as dificuldades sentidas, o que esteve bem e o que esteve mal. Um reforço positivo pelo seu esforço ser – lhe – á dado e pergunto - lhe se sabe o que é um contrato, conduzindo – o para que me explique por palavras suas. Digo – lhe que na próxima aula faremos um contrato.
Uma vez que conheço um dos gostos do Bruno, um contrato será celebrado nas seguintes condições: Quando o Bruno passar uma aula sem fazer barulho (entenda – se barulho como ruído perturbador de comunicação e de aprendizagem), pode ilustrar os textos sem imagens que a professora pretende levar para a aula. O contrato será assinado por ambas as partes, por mim e por ele.
No sentido de realizar uma autogestão do comportamento do Bruno, em algumas aulas, criarei momentos de reflexão acerca do seu comportamento. Virão novamente à conversa assuntos como as dificuldades sentidas e peço – lhe sugestões como forma de prolongar o seu bom comportamento.
Concluo este texto – exercício de reflexão com uma esperança: a de não desistir de encontrar caminhos alternativos em conjunto, em partilha, ouvindo as sugestões dos colegas e o que sentem os actores: Bruno e Sílvia.
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