terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Dar e receber

A vida dá muitas voltas, costuma-se dizer. Mas eu senti-o e bem neste ano de 2013.Estamos a sair deste ano e eu continuo nas andanças desta volta que parece não ter fim.Não queria Cabinda, até Cabinda me querer. Querendo-me Cabinda, desejo lá voltar a viver. O que o amor que se dá e que se recebe faz...

domingo, 14 de julho de 2013

Mucuhá

a múcua pendura - se nos braços do embondeiro. Vem o corvo, pousa, debica - a e faz : - Crá, Crá. a múcua salta e o homem nos braços a leva para vender. uma mulher passa e pergunta se há múcua para um sumo fazer. e o homem: - Há, há!

noite

nesta noite que eu não quero cedo aprisiono - me na gaiola de 65 de luz e sigo a rotina: o outro e não eu.

Cabinda

embondeiro,corvos,grades,petróleo, palmeiras de plástico, lixo, barulho, música, calendário, curriculum vitae, campo de futebol, prisão, quarto escuro, escola, marmita, mesa de plástico, Líbano, ginásio, noite cedo, amor, só.

sábado, 13 de julho de 2013

O belo do feio

Queria saltar essa grade que me separa do mar. O mar com vestígios de petróleo, latas de cerveja e garrafas de vidro. Seringas e cordas. Mas há de haver beleza por trás do lixo e encontrei uma conquilha. Vou guardá - la para levar comigo alguma recordação de beleza. Não está fácil descobrir beleza debaixo deste céu sempre cinzento, à frente desta água lixada, dentro desta solidão, onde não tenho espaço para ser eu.

sábado, 11 de maio de 2013

queria dizer - te que me fazes falta, mas tu chateias - te. queria dizer - te que tenho muitas saudades tuas, mas tu chateias - te. queria dizer - te que é insuportável não estar contigo tanto tempo, mas chateias -te. E se te disser que me acostumei a não te ter, a ter - te longe. Chateias - te? E quando te disser que a tua ausência criou em mim um espaço vazio que não quero ocupar?

segunda-feira, 25 de março de 2013

Reza, rápido!

Eram seis horas e trinta da tarde. O que estava em cima da mesa da cozinha, grande com uma fruteira, restos de sobremesa, receitas para aviar na farmácia, um pedaço de pão seco, uma panela com algumas sobras do almoço, jornaizinhos "Avé Maria", sujos de tanta leitura, análise, devoção, era arredado. Acendiam - se velas e os santos figurados em papel libertavam -se de um saco de pano. Algumas dessas imagens foram trazidas por familiares que tinham participado nas festas em honra desse santo. Mas o mais natural era terem chegado por correio. Edite e Claudina, irmãs, tinham ficado juntas pela força da solidão de uma viuvez e da morte dos outros irmãos e pais. Só restavam elas as duas. Já não trabalhavam. Estavam tolhidas e movimentavam -se com muita dificuldade. Precisavam da sobrinha para lhes fazer as compras, dar - lhes banho, levá - las ao médico. - Onde estão as pagelas, que não as encontro, Edite? - Carago, raios partam, sei lá onde estão os santos! Ve lá se estão ao pé do armário , ao pé da garrafa de Frisumo. - Já vi, não estão. " Diretamente do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, vamos dar início á oração do terço" - Vês? Já vai começar e ainda tenho de pôr os santos em cima da mesa. Oh, valha me Deus! - Estão aqui, carago. Sempre a mesma coisa!Não há sossego nesta casa! - Faltam as velas; quero queimar aquela benzida e estas duas. Chega - me o isqueiro. - Põe - te para aí a acender as velas que ainda te queimas! Todos os dias a mesma consumição! Raios te partam! - Avé Maria, cheia de Graça ...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

a teia de aranha

Levantava - se todos os dias crendo nos dias da mesma forma, como se o tempo tivesse parado. Ainda por cima, cedo, sempre. Ía à casa de banho, pequena onde só cabia um corpo, libertava a bexiga e olhava -se no espelho. Nada tinha mudado, nem ela, nem o mundo. Apesar de ter quase oitenta anos, ainda conservava o cabelo preto e comprido, graças ao olex que tresandava a petróleo, comprado numa farmácia onde a sua irmã, também entrandota na idade, trabalhava há muitíssimos anos.Depois de dois dedos de conversa com o patrão, a sua irmã aparecia por trás do balcão e após uma troca de olhares já sabiam o que uma ia vender e a outra comprar. Sentava -se depois na cama, a fazer a trança, punha o cabelo de lado e com a cabeça inclinada, dançava com os dedos de lá para cá até a mecha de cabelo terminar num fiozinho fininho de cabelo. Na cama onde tinha dormido com o seu homem, onde tinha adormecido os netos com festinhas na cabeça, onde tinha morrido o seu homem com cancro de pulmão, ela fazia a trança com o movimento de sempre e a trança ficava sempre igual. Tomava o seu pequeno almoço na cozinha, como se estivesse acompanhada. Nada de pressas a que a solidão às vezes se habitua. Punha sempre a toalha lavadinha, fazia uma jarra com flores apanhadas no quintal, refeição completa com a melhor alimentação, de qualidade. Tal e qual como se estivessem "todos" em casa ou esperando a qualquer hora uma visita que não chegava. Antes vinha a filha às sextas com os netos na carreira das 9: 30. Era sempre cevada com leite e um pão que comia e depois ía para o estabelecimento, como fizera quando o seu homem que era latoeiro, estava vivo. Abria as portas pendurava nas portas as cestas em palha e ía colocar -se atrás de uma mesa velha, pesada, enorme com umas patas largas e uma gaveta, a do dinheiro, das faturas, do caderno dos "cães" - os caloteiros da loja. A loja não tinha um chão feito; era irregular e cinzento o que se pisava. difícil era varrê - lo porque o lixo acumulava - se nas protuberâncias e porosidades. A loja tinha caixinhas amontoadas de pregos, parafusoso, porcas, camarões, alguns já enferrujados. A montra era uma tábua alcatifada de vermelho atrás de uma janela amarelada do tempo. Vendia louça, brinquedos, panelas e tachos, brincos de plástico, detergentes tudo fora de prazo, ninguém os comprava, estavam fora de tempo. O que ainda se vendia era o gás, as pessoas continuavam a comprar gás. Quando aparecia algum cliente, perguntava quase sempre algo que não havia na loja. Alguns entravam e saíam pouco tempo depois. Mas a velhinha em memória do tempo que não queria que tivesse passado, mantinha a mesma rotina todos os dias e de trança negra abria a porta aos clientes, mas não a um tempo diferente. Os filhos ainda lhe deram a ideia de vender a loja ou criar uma loja dos "trezentos" que dava mais dinheiro. Ela só respondia: - Quando eu morrer, podeis fazer tudo o que quiserdes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A cidade hoje

Gosto de andar pela cidade a caminhar, atenta ao que me rodeia. Gosto particularmente quando esvazio a cabeça de mim própria para receber a mensagem que os outros me passam.Hoje foi um desses dias. Tento disfarçar quando quero descobrir o que está a acontecer num apartamento ou casa onde alguem deixou a cortina arredada. Depois, já sentada numa pastelaria, das poucas hoje abertas pois é dia de Carnaval, enquanto ía derretendo o almendrado castanhinho e fofo no café que aguardava na boca, entra uma mulher com um lenço às flores, que lhe cobria os cabelos brancos. Tinha umas calças de fato de treino azuis borbotadas e gastas nos joelhos e umas meias grossas que saíam fora dos chinelos de borracha. Entra na pastelaria e diz muito sorridente: - Bom Natal a todos! Em troca, recebe das mãos da empregada de mesa um saco de pão e um riso. Saio dessa pastelaria, em frente à Segurança Social, e dirijo me para o mar. Como estará ele com este mau tempo? Deixa - me ir ver as ondas. De caminho, uma mulher com uma mala rosa sentada à entrada de um prédio que fica ao lado de uma loja de materiais de construção, deita as mãos à cabeça e abana -a desolada. Fui ver o mar e estava como eu imaginava - mau que se fartava, desafiante para o surf. Lá estavam eles com a sua prancha prontos a entrar na água. Até que gosto deste desporto, mas só de o ver. Bem, agora vou à igreja da Nossa Senhora da Ajuda. Preciso de conversar com quem eu sei que me ouve. Santa Teresinha de um lado, Nossa Senhora de Fátima do outro , lá ao fundo Santo António, música de fundo, combinação perfeita para eu "falar". Havia tanto que. Bom, saí e agora vou aonde? Vou à Biblioteca ler qualquer coisa. Afinal estava fechada. Vou buscar as chaves de casa e vou para casa. - Hey, pois é faltam as chaves. Dá - me as chaves. É da minha imaginação ou ouço alguém a falar de chaves? Era um homem no meio da rua com uma perna de pau a pedir dinheiro aos carros que paravam nos semáforos. Agradecia, quer dessem ou não, com um aceno de mão. Esta foi ou é a cidade hoje. Não tem o chilrear dos passarinhos, a calma das horas, nem os aromas vivos e agradáveis da aldeia, ou instantes belos que deverão ser guardados para mais tarde serem recordados. Mas é genuina, reveladora e asfixiante; a pedir socorro porque as horas passam rápido de mais e nem sempre se acompanham. Depois, só se pode parar à espera de outra melhor hora para avançar. Eu preciso de vez em quando de estar na cidade para avançar de mim.