terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A cidade hoje

Gosto de andar pela cidade a caminhar, atenta ao que me rodeia. Gosto particularmente quando esvazio a cabeça de mim própria para receber a mensagem que os outros me passam.Hoje foi um desses dias. Tento disfarçar quando quero descobrir o que está a acontecer num apartamento ou casa onde alguem deixou a cortina arredada. Depois, já sentada numa pastelaria, das poucas hoje abertas pois é dia de Carnaval, enquanto ía derretendo o almendrado castanhinho e fofo no café que aguardava na boca, entra uma mulher com um lenço às flores, que lhe cobria os cabelos brancos. Tinha umas calças de fato de treino azuis borbotadas e gastas nos joelhos e umas meias grossas que saíam fora dos chinelos de borracha. Entra na pastelaria e diz muito sorridente: - Bom Natal a todos! Em troca, recebe das mãos da empregada de mesa um saco de pão e um riso. Saio dessa pastelaria, em frente à Segurança Social, e dirijo me para o mar. Como estará ele com este mau tempo? Deixa - me ir ver as ondas. De caminho, uma mulher com uma mala rosa sentada à entrada de um prédio que fica ao lado de uma loja de materiais de construção, deita as mãos à cabeça e abana -a desolada. Fui ver o mar e estava como eu imaginava - mau que se fartava, desafiante para o surf. Lá estavam eles com a sua prancha prontos a entrar na água. Até que gosto deste desporto, mas só de o ver. Bem, agora vou à igreja da Nossa Senhora da Ajuda. Preciso de conversar com quem eu sei que me ouve. Santa Teresinha de um lado, Nossa Senhora de Fátima do outro , lá ao fundo Santo António, música de fundo, combinação perfeita para eu "falar". Havia tanto que. Bom, saí e agora vou aonde? Vou à Biblioteca ler qualquer coisa. Afinal estava fechada. Vou buscar as chaves de casa e vou para casa. - Hey, pois é faltam as chaves. Dá - me as chaves. É da minha imaginação ou ouço alguém a falar de chaves? Era um homem no meio da rua com uma perna de pau a pedir dinheiro aos carros que paravam nos semáforos. Agradecia, quer dessem ou não, com um aceno de mão. Esta foi ou é a cidade hoje. Não tem o chilrear dos passarinhos, a calma das horas, nem os aromas vivos e agradáveis da aldeia, ou instantes belos que deverão ser guardados para mais tarde serem recordados. Mas é genuina, reveladora e asfixiante; a pedir socorro porque as horas passam rápido de mais e nem sempre se acompanham. Depois, só se pode parar à espera de outra melhor hora para avançar. Eu preciso de vez em quando de estar na cidade para avançar de mim.

Um comentário:

  1. Gostei desta escrita envolvente. Por vezes também preciso de sair de mim para me reencontrar. Beijos

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