sexta-feira, 10 de julho de 2026
amor de plástico
um frasco de xarope,à frente de um jarro de chá preto que foi preciso fazer para enjoos e tonturas, uma tigela de plástico desde que ela era bebé e ainda é usada para a fruta. um livro de costas, à espera de ser lido. A escova de ter feito à pressa uma trança em cabelo curto e a minha carteira aberta de onde espreita o cartão de cidadão. bananas. comem-se a custo, antes que apodreçam. moles e muito doces, os kiwis demoram a amadurecer, todos os dias são apalpados e eu acho que é pelo tato que eles amadurecem. um coração de plástico vermelho para pousar o telemóvel e servir de forma eficaz as relações à distância. Esta é a minha mesa agora mesmo. A minha vida agora mesmo. Muito útil o suporte de telemóvel em forma de coração, dada pelo marido à distância, usado 90 % das vezes para falar com a mãe e a prima. O marido "online" aparece de vez em quando, 5 minutos por dia, para ver a filha, dizer-lhe que lhe vai comprar não sei o quê e marcar a sua presença num registo diário. Depois, há sempre muito que fazer ou um banho urgente a ser tomado. Se estiver acordado até às 22.00, é uma sorte. Acabou o dia. Fecha-se no seu quarto e o mndo acabou para ele. A filha e a mulher continuam a segurar a casa. Haja tosses, diarreias, vómitos ou febres, esse homem dos 5 minutos não acorda. O seu mundo é o mais importante que existe no mundo. O computador, o telemóvel, tudo é plástico. Material resistente, mas se não for de boa qualidade, em contacto prolongado com o ser humano, adoece e causa disturbios na tiroide e doenças autoimunes. Eu sei como chegaram até mim. Adoeci porque preferi o plástico. Agora, resta-me olhar para a mesa que eu pus sozinha com chás, medicamentos e fruta podre ou verde, sem que possa ser alimento para mim.
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