sábado, 8 de novembro de 2025

"Tudo bem ?" não é pergunta que se faça. Não há verdade nem na questão nem na resposta à mesma. Uma pessoa que tem "tudo bem", não é total nem existe por dois motivos. Somos feitos de bocadinhos bons e maus - os bons e os maus, uns mais migalhas esfareladas que outros. Não estamos com "tudo bem" nunca e vamos respondendo, "vamos andando", mudando o foco do tu a quem se dirige o eu, para um nós, como se a questão fosse dirigida a um grupo de pessoas e, portanto, não ao tu, a mim. Tentativa de justificar a resposta falsa com um (nós) "vamos andando" e de me dissipar no grupo de pessoas que com isso concordam, (que posso não ser eu no nós, mas representar apenas uma maioria). Tantos momentos em que não estamos bem e dizemos que estamos... a ditadura do bem-estar e da felicidade, não nos dá a liberdade de sermos quem realmente somos, por vezes.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Troca de correspondência por altura do 26 de julho

É mais fácil para o ser humano ver as diferenças físicas e reconhecê-las e sentir piedade por elas, até, do que as diferenças individuais dentro da própria cultura. O relativismo cultural não choca os homens: ele é assim porque é africano; ele é assim porque é português. Facilmente justificamos com estes motivos. Quando a diferença ultrapassa este relativismo, o homem desorienta-se e quase sempre é seduzido pela sua visão e explicação individual e subjetiva. Quase nunca nada justifica dentro de determinada cultura, à qual eu pertenço, o que alguém semelhante a mim, culturalmente, faz. Mas esquecemo-nos de duas coisas: a cultura é um processo e não um fim em si mesmo e que cada ser humano é elemento individual e idiossincrático. Como somos todos portadores de uma cultura, estamos sempre em evolução; e nos vários contactos que vamos tendo uns com os outros, nos vamos moldando e adulterando uma "virgindade" cultural que não temos.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

A nata

Penso que a maior parte das pessoas lhe chama "pastel de nata"; mas eu nasci, entre a Tasca do Índio e a do Pinto a ouvir chamá-la apenas de "nata". Não que eles lá as vendessem, só muito mais à frente, depois do Tasco do Maleiro, de atravessar o largo da Ponte, de passar o barbeiro que me cortava o cabelo a rapaz e as bombas da Shell onde trabalhava o Zeca, meu avô paterno; só depois de brincar sobre as traves de madeira do caminho de ferro e de cheirar aquele cheiro a queimado de comboio, junto à Cooperativa, é que entrávamos na Rua dos Camilos, onde sim, estava a nata. Era na Pastelaria Pipi, hoje transformada em butique, que a minha mãe encomendava os meus bolos de aniversário e comprava às vezes frango assado numas máquinas, embrulhado depois em papel e que chagava ao Corgo, ainda quente. Esta pastelaria cheirava sempre ao frango assado e a "croissants". Mas era no Grande Ponto que havia as natas que todos os dias a minha mãe me levava para a escola. O Grande Ponto conseguiu resistir às lojas de 1 euro, às sedes de partidos políticos e aos alojamentos locais. A minha mãe dava-me um prémio todos os dias por eu andar na escola primária: uma nata comprada no Grande Ponto; ia todos os dias da escola número 1 do Peso da Régua para o Corgo, com ela, a pé. O caminho era tão longo, mas era como se fosse ao colo da minha mãe, embalada pela doçura e cremosidade da nata que ela me oferecia todos os dias.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Nica fardada

Quando eu era pequenina, gostava muito de um vestido cor de rosa com bolas brancas. Mas não era por ser cor de rosa; mas porque fazia uma roda grande.Todas as vezes que eu rodopiava - no pátio vermelho, ladeado de catos e fetos, da D. Celeste e do Sr. Gouveia, e me via no meio das ondas do meu vestido rosa às bolas brancas, eu sentia-me a menina de 5 anos mais importante do mundo. Era tão bom estar naquele lugar de cheirinho a comida do coração e a festinhas nas costas. Tantas festinhas pedi e recebi, naquela cozinha de paredes verdes com alimentos em pratos de louça pendurados na parede. Eu morava mais acima, numa casinha pequena azul escuro, com o meu irmão e os meus pais. Mas sempre que pairava no ar o aroma a sopa de favas com hortelã, lá ia eu fazer-me de convidada. Dormi no mesmo quarto do meu irmão até aos 9 anos. Um quarto cheio de humidade que gastaram as mãos e os pulmões da minha mãe em lixívia. Escorria água daquelas paredes onde se podia ver o desenho dos tijolos. Hoje, na casa dos 40, acho incrível como me lembro tão bem dos pesadelos que tive naquele quarto: o do cão preto a perseguir-me, o dos buracos da persiana refletidos no teto, o das figuras da Disney, Mickey e Pateta na janela a convidarem-me para brincar com eles, o dos ratinhos luminosos debaixo da porta do quarto que não me deixavam sair dele, o do vento quente que derretia tudo por onde passava, incluindo pessoas e o meu bebé chorão, meu brinquedo preferido, esse vento tórrido que transportava areia só aparecia na casa da minha Vovó Gina. A minha Vovó Gina, deitada na sua cama, virada e revirada pela minha mãe para não ganhar escaras, a sofrer de um cancro de pulmão, toda ela metastizada, disse adeus à vida num julho de temperatura igual à dos meus pesadelos. Enquanto isso, eu corria à volta da mesa da sala, fazendo oscilar o soalho de madeira, ouvindo a minha mãe a dizer: façam pouco barulho.Eu gostava de observar os cuidados que a minha mãe tinha com a sogra, e de vez em quando, eu ia fazendo pedidos : posso pegar na tua boneca Vovó? Podes-me pôr perfume do frasco de peixinho? Posso pôr os óculos azuis? Hoje questiono se estaria a ser inconveniente, um estorvo, ou se estaria a trazer uma réstia de vida àquele alcova doentia e sombria. Nica Fardada era a traquina curiosa que não parava. Tentei descobrir a origem desse nome que ela me deu, mas nunca consegui descobrir a sua origem. Eu não sei quando morreu; só me recordo depois de lhe ir acender lamparinas de azeite e pavio ao cemitério e não sabia como ela tinha ido ali parar; comecei a imaginar que as pessoas se tornavam fantasmas que se infiltravam nos solos, quando estavam cansadas de sofrer e se deitavam, a luz era para quando acordassem e se quisessem levantar e pudessem voltar a casa, já recuperadas; surgiu o medo em mim associado à morte e à possibilidade de encontrar alguém que já tinha morrido, que perdura ainda hoje. Fui sempre privada de funerais e de despedidas, na minha infância, até ser eu, com 7 anos, a presenciar a morte do meu avô e de ser eu a mensageira dela pela rua da Vitória e do Balcão, em Mesão Frio. Só mais tarde aos 20 anos iria ao meu primeiro funeral, o da minha bisavó Delfina. - Perfume em peixinho Eu sei onde está: Nas ondas da infância que vêm e vão. - Se o guardas contigo, ele vai-te mostrar que mesmo na dor há luz a brotar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

As casas da Professora

"Sairão as listas." E sairão os podres de várias casas; as casas que a professora pode pagar. Cheira a esgoto, agora mesmo, misturado com urina. Fui à varanda, com a rede rota, que dá para a antena gigante de telecomunicações e o parque de máquinas da câmara, de onde sai um cocktail de sons diurnos e noturnos. "Está à vontade para sair quando quiser." "E vou para onde? Se tive de vir para mais longe de casa, porque não conseguia pagar uma mais perto; se tive que ser toda uma família inteira para a minha filha para poder pagar uma casa". Preciso tanto de um banho; parar, escutar o silêncio. Imaginar que tenho uma vida normal. Papeis, so papeis. Falta sempre algo na minha vida. Ainda existo ou existo para existirem? Onde fiquei eu, no meio de tanto papel? Outra vez, quero um banho. Mas vou dar banho. Olho para o teto cheio de humidade. "Eu pinto-o", disse lhe eu. Disse que não, que o pintava ele e assim ficou. Preto, vermelho, a descascar . Esse jardim.em cima da minha cabeça enquanto tomo banho, faz me lembrar que o sacrifício não compensa. Desde que cheguei a esta casa, ouço um ruído noturno que tento abafar com uma máquina de sons que comprei; já não sei o que é dormir e descansar em silêncio. Tenho que estar grata, tenho uma casa que posso pagar. E tem sido assim, desde 2019. O papão do som noturno e o papão de sair desta casa, com jardins no wc, gelada de inverno e infernal de verão, com um restaurante prestes a abrir, onde eu apenas durmo com conversas que ouço a partir do telemóvel, onde tenho cabos de vassoura a fechar as janelas pois não fecham e tenho receio de ser assaltada. O papão de sair para algo melhor que não existe e que eu não posso pagar.