sexta-feira, 17 de outubro de 2025

As casas da Professora

"Sairão as listas." E sairão os podres de várias casas; as casas que a professora pode pagar. Cheira a esgoto, agora mesmo, misturado com urina. Fui à varanda, com a rede rota, que dá para a antena gigante de telecomunicações e o parque de máquinas da câmara, de onde sai um cocktail de sons diurnos e noturnos. "Está à vontade para sair quando quiser." "E vou para onde? Se tive de vir para mais longe de casa, porque não conseguia pagar uma mais perto; se tive que ser toda uma família inteira para a minha filha para poder pagar uma casa". Preciso tanto de um banho; parar, escutar o silêncio. Imaginar que tenho uma vida normal. Papeis, so papeis. Falta sempre algo na minha vida. Ainda existo ou existo para existirem? Onde fiquei eu, no meio de tanto papel? Outra vez, quero um banho. Mas vou dar banho. Olho para o teto cheio de humidade. "Eu pinto-o", disse lhe eu. Disse que não, que o pintava ele e assim ficou. Preto, vermelho, a descascar . Esse jardim.em cima da minha cabeça enquanto tomo banho, faz me lembrar que o sacrifício não compensa. Desde que cheguei a esta casa, ouço um ruído noturno que tento abafar com uma máquina de sons que comprei; já não sei o que é dormir e descansar em silêncio. Tenho que estar grata, tenho uma casa que posso pagar. E tem sido assim, desde 2019. O papão do som noturno e o papão de sair desta casa, com jardins no wc, gelada de inverno e infernal de verão, com um restaurante prestes a abrir, onde eu apenas durmo com conversas que ouço a partir do telemóvel, onde tenho cabos de vassoura a fechar as janelas pois não fecham e tenho receio de ser assaltada. O papão de sair para algo melhor que não existe e que eu não posso pagar.

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