terça-feira, 28 de outubro de 2025

A nata

Penso que a maior parte das pessoas lhe chama "pastel de nata"; mas eu nasci, entre a Tasca do Índio e a do Pinto a ouvir chamá-la apenas de "nata". Não que eles lá as vendessem, só muito mais à frente, depois do Tasco do Maleiro, de atravessar o largo da Ponte, de passar o barbeiro que me cortava o cabelo a rapaz e as bombas da Shell onde trabalhava o Zeca, meu avô paterno; só depois de brincar sobre as traves de madeira do caminho de ferro e de cheirar aquele cheiro a queimado de comboio, junto à Cooperativa, é que entrávamos na Rua dos Camilos, onde sim, estava a nata. Era na Pastelaria Pipi, hoje transformada em butique, que a minha mãe encomendava os meus bolos de aniversário e comprava às vezes frango assado numas máquinas, embrulhado depois em papel e que chagava ao Corgo, ainda quente. Esta pastelaria cheirava sempre ao frango assado e a "croissants". Mas era no Grande Ponto que havia as natas que todos os dias a minha mãe me levava para a escola. O Grande Ponto conseguiu resistir às lojas de 1 euro, às sedes de partidos políticos e aos alojamentos locais. A minha mãe dava-me um prémio todos os dias por eu andar na escola primária: uma nata comprada no Grande Ponto; ia todos os dias da escola número 1 do Peso da Régua para o Corgo, com ela, a pé. O caminho era tão longo, mas era como se fosse ao colo da minha mãe, embalada pela doçura e cremosidade da nata que ela me oferecia todos os dias.

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