segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Nica fardada
Quando eu era pequenina, gostava muito de um vestido cor de rosa com bolas brancas. Mas não era por ser cor de rosa; mas porque fazia uma roda grande.Todas as vezes que eu rodopiava - no pátio vermelho, ladeado de catos e fetos, da D. Celeste e do Sr. Gouveia, e me via no meio das ondas do meu vestido rosa às bolas brancas, eu sentia-me a menina de 5 anos mais importante do mundo. Era tão bom estar naquele lugar de cheirinho a comida do coração e a festinhas nas costas. Tantas festinhas pedi e recebi, naquela cozinha de paredes verdes com alimentos em pratos de louça pendurados na parede. Eu morava mais acima, numa casinha pequena azul escuro, com o meu irmão e os meus pais. Mas sempre que pairava no ar o aroma a sopa de favas com hortelã, lá ia eu fazer-me de convidada. Dormi no mesmo quarto do meu irmão até aos 9 anos. Um quarto cheio de humidade que gastaram as mãos e os pulmões da minha mãe em lixívia. Escorria água daquelas paredes onde se podia ver o desenho dos tijolos. Hoje, na casa dos 40, acho incrível como me lembro tão bem dos pesadelos que tive naquele quarto: o do cão preto a perseguir-me, o dos buracos da persiana refletidos no teto, o das figuras da Disney, Mickey e Pateta na janela a convidarem-me para brincar com eles, o dos ratinhos luminosos debaixo da porta do quarto que não me deixavam sair dele, o do vento quente que derretia tudo por onde passava, incluindo pessoas e o meu bebé chorão, meu brinquedo preferido, esse vento tórrido que transportava areia só aparecia na casa da minha Vovó Gina. A minha Vovó Gina, deitada na sua cama, virada e revirada pela minha mãe para não ganhar escaras, a sofrer de um cancro de pulmão, toda ela metastizada, disse adeus à vida num julho de temperatura igual à dos meus pesadelos. Enquanto isso, eu corria à volta da mesa da sala, fazendo oscilar o soalho de madeira, ouvindo a minha mãe a dizer: façam pouco barulho.Eu gostava de observar os cuidados que a minha mãe tinha com a sogra, e de vez em quando, eu ia fazendo pedidos : posso pegar na tua boneca Vovó? Podes-me pôr perfume do frasco de peixinho? Posso pôr os óculos azuis? Hoje questiono se estaria a ser inconveniente, um estorvo, ou se estaria a trazer uma réstia de vida àquele alcova doentia e sombria. Nica Fardada era a traquina curiosa que não parava. Tentei descobrir a origem desse nome que ela me deu, mas nunca consegui descobrir a sua origem. Eu não sei quando morreu; só me recordo depois de lhe ir acender lamparinas de azeite e pavio ao cemitério e não sabia como ela tinha ido ali parar; comecei a imaginar que as pessoas se tornavam fantasmas que se infiltravam nos solos, quando estavam cansadas de sofrer e se deitavam, a luz era para quando acordassem e se quisessem levantar e pudessem voltar a casa, já recuperadas; surgiu o medo em mim associado à morte e à possibilidade de encontrar alguém que já tinha morrido, que perdura ainda hoje. Fui sempre privada de funerais e de despedidas, na minha infância, até ser eu, com 7 anos, a presenciar a morte do meu avô e de ser eu a mensageira dela pela rua da Vitória e do Balcão, em Mesão Frio. Só mais tarde aos 20 anos iria ao meu primeiro funeral, o da minha bisavó Delfina.
- Perfume em peixinho
Eu sei onde está:
Nas ondas da infância que vêm e vão.
- Se o guardas contigo, ele vai-te mostrar que mesmo na dor
há luz a brotar.
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